Construir um bastidor em casa – parte 1

«Não se começa a casa pelo telhado.» O ditado é antigo, mas nunca me fez tanto sentido como quando planeei a rede da minha casa nova.
Quando construí casa, percebi que tinha uma oportunidade que não volta: montar uma rede estruturada de raiz. Em vez de remendar a rede depois, com cabos a passar por trás do sofá e um ‘switch’ em cima de um móvel, ou num painel ITED simples, aproveitei a obra para passar logo os cabos de rede para todas as divisões e planeá-los a convergir num só sítio.
E eu queria construir muito por cima: domótica com o Home Assistant, câmaras e, mais tarde, os meus próprios agentes de IA. Antes de construir servidores, agentes ou uma casa inteligente, é preciso construir a rede. E a rede precisava de um bastidor.
Este é o primeiro artigo de uma série onde vou contar todo o processo: o que comprei, o que montei, o que correu bem e o que correu menos bem.
Porque quis um bastidor
Um bastidor é, no fundo, o quadro elétrico da rede: está tudo no mesmo sítio, identificado, e quando algo falha sabes logo onde ir.
Para mim, as vantagens foram três:
- Tudo num só sítio, organizado e identificado.
- Cabos curtos e arrumados à frente. Atrás, os que vêm da parede ainda são um pouco esparguete, mas estão todos identificados.
- Espaço para crescer sem ter de recomeçar do zero.
1 – Escolher o sítio
Antes de comprar o que quer que seja, escolhe onde o bastidor vai ficar. No meu caso ficou no hall de entrada, debaixo das escadas. Foi o sítio mais perto do quadro elétrico e onde era mais fácil fazer convergir os cabos de toda a casa.
Os critérios que recomendo:
- Perto de onde chega a fibra do operador e de onde convergem os cabos de rede da casa.
- Uma tomada perto, de preferência num circuito próprio.
- Ventilação: os equipamentos aquecem, e um armário fechado num sítio abafado não ajuda.
- Ruído: as ventoinhas dos equipamentos ouvem-se, por isso nunca num quarto.
- Acesso fácil, para mexer nos cabos sem desmontar meia casa.
2 – Escolher o bastidor
Aqui a tentação é comprar o mais pequeno e o mais barato. Resiste: é mais fácil ter espaço vazio do que mudar de bastidor.
Há três coisas a decidir:
- Tamanho em U: conta o equipamento que tens hoje e junta-lhe uma boa folga. O que hoje parece espaço a mais, daqui a um ano já está ocupado.
- Profundidade: confirma a profundidade do equipamento mais fundo antes de comprar.
- Parede ou chão: os de parede ocupam menos espaço, mas aguentam menos peso.
O meu é um LOGON RDL12U68BL: um bastidor de chão de 12U, em preto. A ideia inicial era um bastidor da UniFi, mas eu já tinha comprado a UPS, e ela é mais funda do que esse bastidor. Tive de procurar outro maior, e este foi o único que encontrei disponível com espaço para ela. Mais um erro meu: devia ter escolhido o bastidor primeiro, ou talvez ter comprado outra UPS.
3 – A lista de compras inicial
Esta foi a lista do arranque. A maior parte chegou numa só encomenda, em dezembro de 2025; o NAS e o backup móvel vieram já em 2026. Os equipamentos foram comprados através da empresa Ergostek. O resto do equipamento fica para os próximos artigos.


Para a rede escolhi a UniFi. É uma marca de confiança, uma espécie de Apple das redes: tudo encaixa e é simples de configurar. E eu queria resiliência, por isso há uma UPS e um backup móvel para quando a fibra falha. O coração do bastidor é a UniFi Dream Machine SE: num só aparelho junta o ‘router’, a consola que gere a rede toda e a gravação das câmaras. Por cima dela está um UniFi Switch Pro Max 24 PoE, que liga a casa toda e consegue alimentar ‘access points’, câmaras e video-porteiro por PoE. Para o Wi-Fi, tenho três U7 Pro dentro de casa e um U7 Outdoor para o quintal. A UDM SE trata também das quatro câmaras G6 Bullet, do Door Hub da entrada e dos sensores de porta, mas isso fica para outro artigo.
Dentro do bastidor ficaram também o NAS, um UniFi UNAS Pro 4 com quatro discos WD Red Plus de 8 TB, e um Raspberry Pi 4 que só tem uma tarefa: correr o Home Assistant. Os discos estão em RAID 10, o que dá cerca de 16 TB úteis e aguenta a avaria de um disco sem perder dados. Para acelerar, tem um SSD NVMe M.2 de 1 TB a servir de cache. Uso o NAS como a minha nuvem local, com cópias de segurança do que é mais importante para mim, para o Proton Drive. Mais tarde quero juntar-lhe um segundo NAS noutra localização geográfica e, quando começar a usar Kubernetes, é também aqui que vão viver as pastas persistentes.
Uma escolha de que não me arrependo: o consumo do bastidor é medido por um Shelly EM no quadro elétrico. Assim consigo ver no Home Assistant quanto gasta a rede por dia e por mês. Mas isso também ficará para outro artigo.
4 – Os primeiros passos da montagem
- Mede o espaço. Confirma que o bastidor cabe, que a porta abre por completo e que fica espaço atrás para os cabos e para o ar circular.
- Assenta e nivela o bastidor no chão e confirma que fica estável, a pensar no peso que vai ter quando estiver cheio e não no que tem vazio. O meu tem pés, por isso vale a pena acertá-los antes de o encher.
- Passa os cabos e identifica cada um nas duas pontas, antes de os ligar. Parece exagero, mas daqui a um ano não te lembras qual é o cabo da sala. Confesso que não fiz isso no inicio e depois foi mais “dificil”.
- Planeia a ordem dos equipamentos antes de aparafusar o que quer que seja. A regra é simples: o mais pesado fica em baixo e o que tem mais cabos fica em cima. No meu, de cima para baixo: o painel de ligações, o ‘switch’, a UDM SE, depois o UNAS Pro 4, com o ‘router’ do operador, o Raspberry Pi, o SuperLink e o UniFi LTE pousados em cima dele, e, lá em baixo, a UPS.
- Tira fotografias antes de fechar a porta. Ajudam muito quando algo avaria (e servem para este artigo).
Um aviso, e aqui contra mim falo: mede as distâncias antes de comprar os cabos. Comprei alguns cabos DAC (os cabos de 10 Gbps que ligam os equipamentos UniFi entre si), curtos demais e tive de encomendar outro, um 10G Long-Range, para chegar onde precisava. O mundo não acabou por causa disso, mas foi uma encomenda que podia ter evitado. E não, não montei tudo num fim de semana. O bastidor foi crescendo aos poucos, à medida que a casa ia sendo construída, sempre com a ajuda do eletricista.
Conclusão
No meu caso, o bastidor foi a base de tudo o que veio a seguir: a domótica, as câmaras e até os agentes de IA que hoje me ajudam a gerir a casa. E se estás a construir ou a remodelar casa, aproveita e passa todos os tubos que precisas, para depois passares os cabos com folga e sem trabalho.
O meu conselho: não tenhas pressa. Escolhe bem o sítio, compra um bastidor com folga e identifica os cabos desde o primeiro dia. São coisas simples, mas é nelas que está a diferença entre uma rede que te dá trabalho e uma rede que simplesmente funciona.
No próximo artigo vou mostrar o equipamentos de rede que pus dentro do bastidor e como o configurei.
E tu, já tens um bastidor em casa ou a tua rede ainda vive atrás do sofá?
